• Paulo Saraiva

CIRURGIA PLÁSTICA E AUTOESTIMA




Redefinindo os limites de interação de si mesmo com o mundo


Muito se fala sobre o excesso de procura por cirurgias plásticas nos últimos anos. Aparentemente, tornou-se banal mudar o formato do nariz, o tamanho dos seios, a silhueta e, em menos de um mês, apresentar uma nova versão de si para o mundo.


O que se fala menos, no entanto, é que, de banal, uma cirurgia plástica não tem nada. Toda mudança na imagem corporal é, antes de tudo, uma transformação psicológica poderosa. A primeira mudança significativa parece ser um "ajuste"da imagem ideal que se tem sobre si mesmo à imagem real que mostramos aos outros. Esse ajuste vem com uma força de reparação, como se tivéssemos vivido até aquele momento com um corpo que não nos pertencesse ou não fizesse jus ao nosso verdadeiro eu.


Esse novo e verdadeiro eu, fruto do processo de reparação e de compensação pelos anos de sofrimento em silêncio anteriores à cirurgia, sente-se finalmente com sua carga total, com força e poder para fazer de sua biografia aquilo de que sempre se considerou merecedor..


Enfim, é hora de viver, sair da toca e se mostrar, deixando para trás um passado de vergonha, timidez, menos-valia, baixa autoestima e repressão de desejos. Aquela garota que não se sentia vista ou valorizada passa a ser a mulher da vez.


E qual seria o poder adquirido após uma cirurgia plástica? Ora, o maior dos poderes: a descoberta da força imensa da confiança em si mesmo e do impacto que ela promove nas pessoas em volta. Isso, em princípio, é algo extremamente positivo e que traz grandes mudanças sobre a relação da pessoa consigo mesma e com os outros.


Em geral, é difícil fugir do deslumbramento e da sensação inicial de que agora o "novo "operado pode muito mais do que antes. Há uma grande tentação de ceder aos chamados da vaidade, de conquistar aquela pessoa que não lhe notava, de atrair olhares de admiração, de se mostrar muito mais...


Infelizmente, há muitas variáveis psicológicas que escapam ao nosso controle e que geralmente acompanham o processo de transformação da imagem, todas relacionadas à descoberta do poder, que traz a tona uma série de situações inconscientes.


Ou seja, não estamos falando de uma transformação física apenas, essa parece ser a mais sutil das mudanças. Falamos de transformação de personalidade, da atuação das pessoas no mundo. O perigo é negligenciar aspectos importantes da vida deixada para trás, esquecendo-se de uma palavra fundamental: humildade.


Como todo processo da vida, o equilíbrio é o estado mais difícil de ser conquistado, por isso é comum, após uma cirurgia plástica, passar-se da baixa autoestima para a supervalorização da imagem, antes de ser entendido que o corpo é apenas uma ferramenta da relação do paciente com o mundo, não representando diretamente quem se é na essência.


As marcas pelas quais se é reconhecido na trajetória da vida, beleza, simpatia, timidez, exuberância, carisma, entre outras, são apenas um dos muitos elementos que compõem o ser. As mudanças corporais, como quaisquer mudanças, servem para se tomar consciência desses pequenos elementos e de como é frágil e manipulável a atuação no mundo. O que se é está além do que se representa em determinados momentos, mas vai sendo modulado por essas representações e pelos olhares alheios, que reforçam ou ignoram variáveis ao longo dos tempos. É a combinação desse jogo de forças entre o que está dentro e fora da pessoa.


Imbuídos dessa nova compreensão, aí sim, pode-se ir atrás da verdadeira mudança : a consciência do real valor de cada um, ricos e únicos, mas não menos especiais do que os outros. No fundo, o que se busca é o encontro do real com o ideal, do possível dentro de cada um e do concretizável na prática, e, para isso, cada um vai conhecendo seus limites, desafios e rendições

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